o menino do leblon   
      



E um dia o menino sentou naquela esquina do Leblon, perdido, órfão de sonhos.

As pessoas passavam e ele lá, hipnótico.
Uma velha desceu do apartamento e ficou falando alto com o zelador para tirar o garoto de lá.

"- Como pode uma coisa dessas? E a nossa segurança? Não pode ficar assim, não pode!"

O menino só olhava pra cima. Para uma certa janela do Leblon. No meio do caminho pra praia, numa esquina. Atrapalhando a vida normal.

"- O que tem esse menino? Para que nada ele olha tanto?" - perguntava a mãe com suas filhas com bóias nos braços e baldinho à tira-colo.

Passava o sol, passava a chuva e o menino era estátua. Um monumento a uma paixão desconhecida. Uma paixão por algo desconhecido.

"- Eu já vi isso uma vez, lá em Minas. Não sei se tem cura não." - comentou alguém.
"- Deixa o cara" - sentenciou um surfista de bermuda azul e flores brancas.

Os dias foram, a vida foi seguindo.

Um dia, ele levantou e foi embora.

Acho que até a velha ranzinza sente saudade do menino.

SP 29/08/01
Jean Boëchat


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