há em mim   
      

Você nunca entenderia o que me move
Não entenderia minha melancolia.
Por mais que se esforçasse.
Não seria capaz, em toda a sua loucura, de conhecer o que há em mim.

O que há em mim.

É mais do que o óbvio.
É complexo na simplicidade.
Não sei quem chegou perto. Tenho palpites, mas são poucos.
Talvez eu não seja nem tão demais. Mas sou pleno.
Verdadeiro, exposto.

Exposto de entranhas, tão simples, que passam desapercebidas.
Desapercebidas pela petulância tua. Ou pela arrogância do minha.
E mesmo assim, perfeita, não consegue ver o que há em mim.

O que há em mim.

Está nas minhas entrelinhas. Não, corrijo: está nas entreletras.
Está na sua frente, por trás, dos lados, em cima, embaixo. Mas está, eu sei.
Falta você cegar. Fechar os olhos e deixar os outros sentidos.

Mas você não consegue. Você teme. Me diz, o que?

O que há em mim?

Me deixa entrar no teu coração? Abre a porta? Eu não vou fazer bagunça.
Prometo me comportar. Já pedi com educação. Já pedi com violência.
Minha violência delicada e sutil. A violência poética.

Talvez eu não seja capaz de ti. Talvez não seja nem próximo do que você acha que merece.
Talvez seja tudo muito mais simples do que nós mesmo imaginamos: é só um problema espacial.
Dois corpos não podem dividir, ora, deixa prá lá. Se for só isso... bem, mandei deixar prá lá.

Seguindo...

Você pode entender o silêncio do mundo nos gramados e nas obras dos homens.
Mas é só grama e pedra, e, não é só grama e pedra. Eu sei que me contradigo - há quem diga que faço isso de propósito.

Eu entendo como sendo Deus. E não uma vez só. Sempre. Deixando fluir, possuir, alimentar. Amar. Assim, tudo é sempre poesia. Toda a tristeza, todo mundo, o Bem e o Mal.

Acho que os mundos são apenas diferentes. Prefiro pensar assim. Prefiro pensar que realmente não tem a ver com nada. Pólos semelhantes se expelindo. Apesar de eu insistir, desde pequeno, em quebrar as leis da magnética. Fica aí, meu questionamento eterno: será que não dá mesmo?

Não importa. Eu amo essa insistência. Amo essa teimosia velhaca, chata, irritante.

Tenha paciência com o que há em mim.

Eu sei é que sou novo. Não um novo manjado, previsível. Sou o mais diferente de sempre. Aquele que você ainda não conhece. O mesmo novo.

Quem sabe se você não fizer um mínimo esforço em direção a diferença, um dia, lá na frente, pode até descobrir o que havia em mim.

Mas me conjugue no passado. E em arrependimentos.

Conceição do Mato Dentro 28/07/01
Jean Boëchat


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