o último poema   
      

o último poema

é escrito com a mão ardente
do fogo que cicatriza
um dos cortes diagonais

o último poema

é aquele que já disse tudo
que já fechou a cortina
já fechou a janela

o último poema

é aquele que já apagou as estrelas
espantou as nuvens
despediu do mar

o último poema

deixa dúvida
deixa silêncio
deixa saudade

o último poema

é meio sem certeza
é meio sem saída
é quase um desespero

é o último poema

que olha bem fundo
que não pede mais nada
que é quase memória

o último poema

dá adeus a clarabóia
não tem bis para ninguém
é onde não enxergam mais os olhos
e vive-se só a alma

o último poema
é o fim.

o último poema
não existe.
é ler tudo desde o começo e nunca entender

o último é só sentido. como todos.
o último poema é o adeus.

SP 26/10/01
Jean Boëchat


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