por causa do poema perdido   
      


Tinha escrito dois poemas hoje.
Fui vítima da tecnologia.
Dois poemas prontos, duas obras perdidas.
Duas obras cruelmente assassinadas.

Uma falava de crianças.
Outra falava. Falava das nossas mãos.
Das coisas que elas fariam juntas.
Falava do cansaço atual.

Sim, eu estou tão cansado.

Falava das saudades, dessas saudades das mãos,
apresentadas em noite de brisa.

Perdi seu poema.

A menina me pergunta:
"- Poema não é trabalho?"

Poema é punção, é parto, é tirar sangue.
É procedimento gutural. De entranhas.
É cirúrgico.

Poema é um extirpar de emoção.
Poema é um extorquir de paixão.
Poesia é tomar de assalto um coração, e roubar dele as brincadeiras.

As brincadeiras de língua. Como um beijo.

Mas eu perdi seu poema. Perdi suas mãos.
E tudo o que as nossas iriam fazer juntas.

Fui o poeta distraído, merecia o harakiri.
Como perder assim suas mãos?

Assim como um carinho atrapalhado.
Como uma derrapada no gelo.
Uma leve brisa sobre seu corpo.

Perdi.
Tudo o que iríamos escrever, desenhar, segurar.
As mãos.
Mas tudo bem.

Meus dedos não têm pressa.
Muito menos meu coração.

SP 25/12/99
Jean Boëchat.




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