ah, engraçada vida   
      

Ah, engraçada vida,
no meio das coisas
bate em mim uma vontade
quase infantil
quase adolescente
quase adulta, um pouco idosa

tal vontade me quer:
escrever, escrever. escrever
sobre todas as a[e des]venturas
que me habitam o sonho

o sonho no sono
o sonho no dia
o sonho dos sonhos
os sonhos do livro azul

assim, abro meus braços
como borboleta,
como cristo no pescoço,
como goleiro em frente ao pênalti

venham, venham
crianças, vagabundas,
princesas, alienadas
intelectuais, precisas

venham, venham
todas as inspirações
sem qualquer poeira de distinção
ser apenas: ar, respiração

quando menos se vê
despiu-se uma alma
caiu uma nobreza
surgiu uma verdade

verdade qualquer, verdade de sangue
que pulsa
bombeia
irriga
a policultura dos meus pensamentos

verdade prostituta
vendida para leitores confortáveis
para amores que até chegam perto, mas...

... [silêncio] ...

verdade que pisa nas flores
que risca o asfalto
traçando estádios de amarelinha
onde céu é inferno,
inferno é seu.

só falta uma pedrinha para atirar:

ah, engraçada vida,
que me traz um épico de madrugada,
de tormento após temporal

onde tudo o que restou de mim
apagou-se nas letras
que fizeram amor com estrelas,
até a noite apagar e o dia acender.

assim, eu vou, engraçada vida,
descansar para o sempre, até amanhã.

SP 23/01/02
Jean Boëchat


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