corte diagonal   
      

Ele cortou-se com espelho
corte diagonal, para não ter chance.

Como as fitas vermelhas dos presentes de sua mãe. Como o arado nas terras do seu avô.

O sangue reflete no olho com medo.
Na hora, não há muita certeza do que se fez, do que se faz.

Começa claro e ralo. Torna-se grosso, espesso, rubro.

No banheiro branco, a cor predomina.
Nos olhos profundos, lágrimas de fraqueza.

Foi difícil enfrentar? Foi.

Não há coragem.

Ele cortou-se com espelho
corte diagonal, para não ter chance mesmo.

No banheiro branco, há uma tontura estranha.
Nos olhos amarelos, lágrimas de incerteza.

Jorram lembranças, pessoas, passados.
Misturadas com água quente, vapor e um fim triste, bobo e desnecessário.

Mas cada um escolhe o que quer. Ele cortou-se com espelho, corte diagonal.

SP 22/10/01
Jean Boëchat


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