tal qual dizer teu nome   
      

Deitada ao meu lado.
Olhos fechados, seu sono.
Eu, olhos abertos, meu sonho.
Teu corpo ali no frio, quente.
Assim não dá. Perco o respeito.
Dedo liso escreve um épico nestas costas.
Fala de viagens intermináveis,
batalhas incríveis e noitadas insaciáveis.
Não preciso nem escrever mais.
Está ali, deitada, a própria poesia.
Poesia em pele, carne e uma alma misteriosa.
Não quero simplesmente decifrá-la.
Sou mais de passear em ti, eternidades.
Que diversão de madrugada! Me empapuçar dos olhos na linha das curvas.
Brisa e pêlos em alerta, um gemido sonolento, e eu:
    "- Ai..."
Sei que não sou do estrangeiro
Mas tem problema?
Pensamentos dizendo aquilo que os sons não dizem.
Tal qual dizer teu nome. Não posso.
Nem as rimas que faria ali na cama.
Cuidado, você se mexe e provoca tonturas.
Um quase cair sobre as costelas. Que calor.
Sigo escrevendo, já em sua bunda.
Sem pudores, a obra-prima atinge o ápice.
Um pequeno sorriso, do sono falso, desafia e, então, me questiono:
    "- Me diz, você sabe o que eu estou fazendo?"
Sem respostas, displicentemente você vira.
E agora?
Já me esqueci em dedos.
Para palavras, nada mais que bocas e poros.
Mas aquele sono menina? Onde foi parar?
Acho que nunca esteve ali.
Daqui pra frente, tudo é somente música.

SP 22/05/01
Jean Boëchat


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