a bailarina   
      

Clara tinha nome de bailarina.
Era branca, um fio de leite derramado em suavidade numa mesa escura.
Saltava aos olhos, ao mundo, com suas sapatilhas.

O tempo.
O tempo era vasto, era vida toda.
Horas e mais horas.

Clara era rodopios.
Como um relógio em fúria apressada.
Rodava, rodava, rodava, rodava e rodava sem parar.

Deixou meu texto tonto.
Foi num salto.

O palco.
O palco era a feira livre, eram as cores das frutas, os sabores do sol.
Metros e mais metros.

Clara era só pulinhos.
Como uma rã que passeia no gramado.
Pulava pra cá, pulava pra lá. Era pronta para decolar.

Apertem os cintos.
Fui em vão.

Clara não olhava pra mim.
Por causa da distância e meu jeito de estivador.

Nessa, eu dancei.
Sem pas de deux.

Clara era lírica.
Até seu desprezo era poesia.
Os movimentos corretos, o tempo, a harmonia do corpo.

E um não solene, de um silêncio longo.

Assim passou Clara por mim.

SP 21/08/01
Jean Boëchat


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