Se vai se entregar, entregue-se a mim mesmo.
Em corpo, em alma, em som, em desejo.

Se vai tocar a luz, toque-a com toda a força.
De raiva, de fome, de sede, de flores, de moça.

Se vai sentir o prazer, sinta-o comigo.
Como um tato, como um beijo, como um amigo.

Se vai fugir para sempre, fuja de verdade.
De carro, da vida, de ônibus, da maldade.
Saia de perto das ruas desta cidade.







As ruas são perigosas, não pelo trânsito, mas pelo ângulo.

Goze em silêncio, em prantos, em ansiedade.
Os prantos são tristes, não pelas lágrimas, mas pelos olhos.

Ilumine, choque-se, exploda com eletricidade.
As explosões são violentas, não pela carne, mas pelo sangue.

Chegue, se entregue, se esfregue, ame com voracidade.
Os amores são duros, não pelo excesso, mas pela falta.

Decida-se.

Se vai decidir, decida por você.
Não por mim, nem pela pressa.

Com calma, com pureza. Sem trauma, apenas com certeza.

SP 26.02.1999 • Jean Boëchat
Ilustração: Tom B.
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