Pra Onde Você Vai II   
      

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Humilde releitura de "Pra onde você vai", música e letra de João Luis Woerdenbag,
vulgo Lobão. Faixa nº 3 do CD "A vida é doce" de 1999.
Para quem quiser ouvir, tem uma versão em MP3, aqui.

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Se conheceram numa quarta.
Não tenho muita certeza, mas acho que foi numa quarta.
Uma festa. Muita gente. Muita loucura.
Ela: a amiga do amigo do primo da amiga do amigo.
Ele: o inversamente proporcional. Seis graus de diferença.
Não se sabe muito bem quem os apresentou.
Talvez tenha sido o... como é mesmo o nome dele?
É... deve ter sido ele mesmo.
Beberam muito, fumaram um pouco, dançaram todas.
Sabe-se apenas que foram vistos tomando o mesmo táxi.
Alguém jura que viu um beijo aquela noite. Eu não lembro.

Nas paredes escrevia o seu nome
Pra tentar esquecer
No espelho assistia à própria dor
De lembrar
Na sala vazia, a televisão ligada,
Uma tentação de existir
Na cama, sem dono, perguntava
Como tudo foi acabar


Longos telefonemas. Uma, duas ou três sessões de cinema.
Muitos beijos num filme ruim.
Jamais se esqueceria aquela primeira noite de amor.
"- A trepada do século", afirmava ela, deliciosamente masculina.
Ele: silêncio. Uma reação quase infantil.
Turismo em móteis. Excursões aos diversos cômodos da casa.
É, isso mesmo. Uma casa, tão rápido, a mesma casa.
Poucos quadros na parede descascada. Um grande sofá.
A cadeira dele. A TV preto-e-branco. Fantasmas.

Minha aventura
Pra onde você foi?
Pra onde você vai?


Socialmente, nunca se conheceu casal mais perfeito.
O que um não tinha, o outro completando.
Respostas certas para perguntas erradas.
Tantos gestos de carinho explícito.
Vários ouviram: "- Eu te amo."
Coisas que não se diz, impunemente. Responsavelmente.
Ninguém perguntaria se a unanimidade dá certo.
Ninguém queria saber nada. Só fantasiar.

Se ao menos, tanta coisa que se
Vive junto não evaporasse assim
Se, ao menos, na hora dela me deixar
Precisasse um pouco mais de mim
Se, ao menos, no escuro eu
Conseguisse apagar
Dormir sem sonhar, apenas
Dormir sem sonhar...


De repente, a tinta do quadro escorreu.
Pintura molhada. De sangue e lágrimas.
Dor.
Certeza, ninguém tem. Nenhum dos dois.
Alguém começou, alguém terminou.
E hoje, o que resta naquela casa?
O mesmo sofá, a mesma TV, agora não funcionando mais.
Resta ele, sem foco. Fazendo companhia aos fantasmas.
E ela? Ninguém sabe, ninguém viu. Nunca mais.
"- Talvez tenha sido sonho", diriam...
Para mim, virou um pesadelo. A aventura.

Minha aventura,
Pra onde você foi?
Pra onde você vai?

SP 19/04/00
Jean Boëchat
(sobre letra de Lobão)




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