chuvas e trovoadas   
      

Viu a parede vindo por detrás dos prédios do Leblon.
Um sábado meio frio, meio cinza. Em suas narinas, um cheiro de maré na Lagoa.
Tanto silêncio entre os dois. Sentados de costas no pequeno pier, eles pensavam qual seria o cenário mais bonito da cidade.

"- Eu queria filmar no morro. Perto daquelas suportes que parecem segurar todo o peso do mundo." – disse Ela.

"- Ah, legal." - resmungou Ele.

Silêncio de novo por alguns minutos.

"- Cê não gostou?" – Ela pergunta.

Mais um minuto.

"- Anh? Ah... Claro. É legal sim. Eu adoro essas coisas. Fico imaginando como os caras colocaram ali." - Ele respondeu. E depois de 23 segundos:

"- Desculpa, amor... Eu tava distraído com a chuva que vem vindo, dá uma olhada aqui."

Virou-se e viu a parede cada vez mais perto da cidade, mais perto da praia, dos prédios, do bairro, da Lagoa.

Antes que pudesse dizer qualquer coisa, já tinha chegado até eles.
Chegaram também dois sorrisos marotos, não tão de criança.

A chuva é forte. Pingos quase quentes e grossos para acariciar os corpos.
Não dá mais para ver a cidade, a praia, os prédios, os morros, o bairro, a Lagoa.
No meio de tudo isso, Ele encontra Ela. De dois olhos, saem mil beijos loucos, praticamente proibidos. O amor rolou ali mesmo, no pequeno pier.

No fim de tudo, já não se sabia o que era suor, o que era lágrima, o que era gozo,
o que era vida, senso, responsabilidade ou sonho.

Ele invadia Ela. Ela comia Ele. Insaciável tempestade.

Foi tudo muito rápido, muito calmo e tenso. Imperceptível para os passantes, os moradores dos condomínios, os cisnes do pedalinho. Quando menos se viu, foi, já tinha sido.

Passou a chuva e atropelou o morro.
Ainda sujeito a chuvas e trovoadas, Ele disse:

"- Pô, tinha que filmar!"

E Ela, com toda a certeza do mundo:

"- Tinha não."

E assim, o silêncio voltou junto das gotas que sobraram.

SP 16/01/02
Jean Boëchat


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