vidas fatiadas 1   
      


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Hora de cortar as ligações com o mundo estranho.

Os sonhos ficam na cabeça
As dores no coração.

De que adianta correr na faixa de pedestre?
O sinal já vai abrir, menina. E você pode pular.

...

Sobrou alguma coisa de vocês?

Todas as peças já foram colocadas
Nem sei o quadro que formei.

Ela seguiu adiante. Correndo entre carros, tons de cinzas e tristeza profunda.

[ começa a chuva - trovoadas e relâmpagos são bem recebidos ]

...

Não dá mais para ler teu nome. Dá-se para o pecado.
Entrega-se às pressas, quando devia preces.

Nunca mais para voltar atrás.

...

Em 78, ela tinha um grande amor e sofás de zebra
Dançava sempre que podia.
Girava em todas as rotações interminantemente, sem culpa.
Era 78.
Em 90, só mudaram o amor e os sofás.

...

Durante muito tempo,
foi um olhar pra cá, um olhar pra lá.
Relance de mãos. Replays.
Foram meses e meses assim.
Elas duas.
É, num filme meloso, num cinema qualquer,
alguém não se segurou.

...

Sentiu a maior de todas as dores,
mas o bebê saiu inteiro.
Ela, ali, de pernas abertas.
Olhava os pequenos olhos negros e sorria chorando.
" - É", pensou, " - Vale a pena."

...

Toda hora que tem um adeus.

" - Não dá mais para continuar assim."
" - E eu? Você acha que eu não sei disso?"
" - Porra. Não sei!"
" – Não fala assim! Agora você vai se fazer de vítima!"
" - E você? Sempre tão poderosa, tão segura!"
" - ..."
" - Chega. Olha, é melhor você sair."
" - Mas..."
" - Sai... por favor!"

Segue o silêncio.

...

Nenhuma noite seria igual àquela.
No momento em que ele a tirou para dançar, ela já sabia:
" - É hoje. É ele."

O Sol sobre seus ombros ou o Amor da sua vida.
Levaram os suspiros por aí.
Precisa dizer mais alguma coisa?

...

Eles sempre andaram juntos.
Ele sempre teve medo de velocidade. E ela pisava fundo.
Ele descontava nas noites de chuva e na presença de baratas.

...

Nunca aprendeu a cozinhar.
Não conseguia entender como é possível se organizar para qualquer comida dar certo.
Ele nunca ligou. Sempre disse que tudo estava uma delícia. Sem hipocrisia ou mera gentileza.
É amor mesmo, acredita?

...

Um dia ele escreveu um poema lindo.
E quando leram, ela sabia para quem era.
E ele, o poeta, não soube jamais.

...

Um dia ela viu a camisa dele.
Passou o dedo onde o bolso estava solto. E disse:
" - Hum... Precisa costurar."

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SP 16/01/01
Jean Boëchat




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