aquele ar: vago   
      

Ela sempre teve aquele ar: vago.
Como mente perdida, jeito de tonta. Mas é só jeito.
Farsa calculada.
Não de dissimulação, não de maldade? Há dúvida.
Maldade talvez seja algo muito forte. Mas ela é assim, que se há de fazer?
Não. Maldade não.
Ela é pura, se faz de.
Ela é simplicidade complicada.

Coisa assim, de gente que pensa. Ainda bem, gente que pensa!

Parece que ela mexia com artes. Desenho, cores, papéis. Não me lembro direito.
Ela tinha esse jeito colorido de ser. De misturar todas e nenhuma. As vezes era negra, as vezes alva e invisível. Sempre era reciclável. Assim, materialmente era ela. Um papel bonito, vistoso, daqueles que dá gosto cheirar e pegar. Papel que tem vida.

Andava solene nas ruas. Não precisava de escudeiras ou cavaleiros. Sempre soube se defender, não tem esse papo de menininha aqui não. Reinava em Copacabana. Desde de pequena, era a dona das ruas, das brincadeiras, dos namorados, dos pecados solenes, das belezas proibitivas e dos desejos fugidios. Mandava em tudo que era vivo, da beira da praia até o caminho da sua casa. Foi assim, durante muito tempo.

Hoje ela anda, de bermudinha, linda, andar de bailarina, cabelos lisos castanhos e aquele ar: vago.

Toda tarde, ela caminha na areia, desenha na espuminha e o mar leva.
Molha as pontas dos dedos e seus pensamentos tolos.

No calçadão, ela toca piano. No preto e branco, sola escalas compulsivas.
Quem vê de longe não entende aquela mulher que vai pra frente, pára e pula rapidinho pra trás, dá uma corridinha e volta lentamente. No ar, aquele silêncio de cidade grande, vago.

É assim todo dia.

E quase que eu me esqueço do pãozinho. É. Ela compra sempre um pãozinho quente, daqueles que se embrulha em papel cinza e cordinha. E volta pra casa.

Todo dia vago.


SP 15/08/01
Jean Boëchat


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