ah, cidade   
      

A cidade nunca mais foi a mesma.
Naquele dia de sol, ela não amanheceu cansada. Estranha.

Tudo estava muito calmo.
Não ventava. Não era feriado.

Os meninos continuavam jogando bola, como sempre.
Duas ou três senhoras andavam "passados" pela Lagoa.

Correndo, aquele cachorro amarelo, feliz da vida.

Naquele dia de sol.
A cidade.

Seus sapatos sujos, a meia no calcanhar.

Não olhar para trás, não tentar alcançar o que já foi.

Pouco importa. Nem importa, na verdade.
Foi-se um dia.

Mas, a cidade, nunca mais foi a mesma.

Ainda tem areia no cabelo?
Foi esquisito, eu sei.

Sensação de infância, dos tempos dos castelinhos de pingos.
Que delícia era brincar ali. Arquitetar, literalmente, aventuras-romances-planos-de-guerra.

Outros tempos. Os castelos hoje são de massa falida.

Dias de sol, outra cidade.

Temos que agradecer, nem que seja pela tal estranheza.
Vamos nos ajoelhar, pedir por você e pelo futuro.

Como se os pecados nos deixassem a sós, que ironia!

A cidade nunca mais foi a mesma.
Passou um vendaval enorme.

Levou consigo uns dois ou três fantasmas.

Naquele dia de sol, ela amanheceu calada. Manha.

SP 14/10/01
Jean Boëchat


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