here comes the sun   
      

Há tempos sua vida estava meio esquisita. Tristeza de congestionar alma. Tudo parecia errado, como um daqueles dias em que você acha que não devia ter acordado, ou, quisera nascido. Daqueles dias em que tudo dá errado: o salto quebra andando pelas calçadas de Botafogo, o pé torce, a meia fura ou acorda-se com uma terrível dor de cabeça e um cara esquisito roncando do lado – e que, obviamente, você não tem idéia de onde veio. O problema é que essa sensação já vinha há dias, meses, séculos! Afinal de contas, tinha que manter o seu tradicional exagero sobre as coisas.

Aquela noite não tinha sido diferente. A angústia atingiu em cheio a madrugada. Foram horas seguidas de choro desesperado. Em momentos assim, não adianta pensar em razões, causas, culpas. O negócio mesmo é botar tudo para fora, desengarrafar: encheu três baldes de lágrimas. Quando finalmente chegou naquela hora em que você só gagueja, soluça e não tem mais voz para gritar ou corpo para correr, ela abriu os olhos e percebeu o dia. E não era qualquer um.

Nascia "o" dia. O dia novo, como sua nova vida. Enxugou uma última lágrima, fungou um pouco e caminhou para a enorme janela de sua casa.

Encostou o corpo no vidro que ia do chão até o teto. Os olhos fixos na luz que vinha crescendo dentro de si e fora do mundo. Aquela cobertura, no alto do prédio, tão perto de Deus e na beira da praia, era realmente tudo o que se pode imaginar de mais maravilhoso. Seu pai havia caprichado no projeto moderno e encontrado o que poderia haver de melhor na cidade, para se conviver tão intensamente com aquele mar, aquele céu e seus todos mistérios.

Assim, grudada no vidro, viu sol nascer, a luz esquentando o corpo e todos os tons de cores mais bonitos da manhã. De repente, toda aquela tristeza se partiu. Não havia espaço para ela.

Saiu correndo, pegou o elevador e já havia atravessado o portão do prédio.

Começou a andar, com passos firmes, em direção ao sol. Passaram janelas, passaram portões, seguiu a rua, como se não houvesse mais cidade. Ouviu os primeiros barulhos da manhã: trens, ônibus, trabalhadores, passarinhos. Manteve a concentração, seus olhos no sol. Suas roupas, frágeis de tanto chorar, desmancharam como papel crepom molhado. Nem percebeu. Foi entregando-se suavemente à sedução divina, como se não houvessem pessoas, dias, anos ou tristezas profundas. Seu corpo esquentava de prazer, dos carinhos solares, dos afagos do vento, do calor do dia.

Ela não pára mais, ninguém segura. Ela ri, geme alto e segue. Sem parar, no tempo do nascer do dia. O prazer aumenta como aquele sol gigantesco. A brisa de maresia passeia por cada vinco, cada traço de seu corpo nu, naquela rua que não existe mais.

Ela anda, anda até não mais segurar um prazer tão intenso. Abre os braços, olha pro céu e grita. E nesse momento, tudo é apenas tremedeira, suor e eletricidade.

Neste instante preciso, seu gozo é o mais intenso - o gozo de quem foi amada por um mundo.

No final, o dia amanheceu. Diferente de qualquer outro. Naquela manhã de janeiro, todas as pessoas da cidade carregaram aquele sorriso que só tem que amou no dia anterior.

SP 14/02/02
Jean Boëchat
Batizado por Catarina Ferraz.


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