começo   
      


Minhas palavras ainda não entraram. Ainda.
Ainda estão perdidas.
No tumulto enlouquecido. Nas pipocas estourando. Na profusão das cores.

Minhas letras.

Não sabem se falam da menina de vestidinho preto.
Não sabem se falam do calor que está. Do que provocam o calor e a menina.
Não sabem falar. As letras.

O começo é sempre complicado. Assim apaixonado.

Miragens.

Meus olhos não sabem falar do que enxergam.
Não sabem escrever do que eu não ligo.

Estão desacelerados. Meus olhos, minhas letras e minha luz.

A velocidade. Inércia.

A queda de resistência. A sobrevida.

Aos poucos cadenciando, aos poucos acostumando.
Com o novo, com os zeros, com os fogos, com as mãos.

A cor de pele, a marca clara que denuncia. O contraste.

Os crimes.

O meu coração, o deserto. A areia.

Roubar no tempo, passar por lá, pertinho. Revirando ampulhetas e idéias.

Só para ver: a imponência, os grandes sonhos, a sua vontade de descansar, e somente assistir tv num domingo.

Assim começa meu ano.

SP 13/01/00
Jean Boëchat.




| anterior | Índice | próxima |


©Mariana Newlands e Jean Boëchat [ Todos os direitos reservados ]