viagem III   
      

Sigo caminhando pelos trilhos,
hoje não tem trem, tem?

Não sei também.

Olho para frente e não te vejo mais.
Descendo a serra.

Não te vejo mais.

Através dos espelhos, nas maravilhas,
simplesmente não te vejo mais.

Passam casas coloridas,
janelas coloridas
e nessa caminhada, sobram apenas
minhas canelas doloridas.

No alto daquele morro, tem um cruzeiro.
Dizem os mais velhos que de lá, ela partiu.

Eu não sei.

Cães latindo e a boa senhora me abençoa.

Olho para os lados e não esqueço mais.
Correndo o rio.

Não esqueço mais.

Através de delírios, nos desejos,
simplesmente não esqueço mais.

Passam chuvas imponentes,
raios incandescentes,
e nessa caminhada, gritam apenas
meus dedos dormentes.

No fundo daquele coração, tem um desprezo.
Dizem os mais tristes que lá, ele não entrou.

Eu nunca sei.

Mas o vento bate na copa das árvores.

Tenho de tudo dentro da minha mala,
e tenho mais nada dentro de minha alma.
Tenho de tudo em qualquer perspectiva,
tenho a estrada, o chão, tenho assim, a minha vida.

Falta pouco.

SP 09/04/01
Jean Boëchat




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