tarde de copacabana   
      

Sempre impressionou sua quietude.
Perto do fim do dia, descia de seu apartamento, andava um quarteirão e já estava na praia. Vinha sempre pelo meio e, do meio exato, partia para um lado diferente do dia anterior. Assim, ia até o fim e voltava. Com o mesmo silêncio.

Comentava-se muito, como sempre se comenta. Toda vida era pública naquele pequeno mundo. Não importava se era ator, político, vedete ou apenas o carteiro. Toda vida era pública. Não poderia ser diferente.

O ritual era o mesmo. Estrategicamente igual. Nada mudava, a não ser a direção tomada na praia, sempre a partir do meio e no sentido contrário do dia anterior. Isso, até um certo dia.

Depois que saiu do prédio, todos os que estavam por ali começaram a falar. Como todos os dias. E falaram, falaram, falaram durante todo o tempo do tão tradicional passeio. De repente, vinha voltando e ao passar entre todas as pessoas - que não paravam de falar, é lógico - cruzou seu olhar comigo, sorriu e disse:

"- Linda tarde, não é mesmo?"

Pode se imaginar o silêncio que veio depois. Sepulcral. Mas durou apenas o tempo da porta do elevador fechar e este começar, lentamente, a subir.

O assunto nas próximas horas é fácil de adivinhar: por que eu havia sido o escolhido daquela mensagem? Seria um código? Um aviso? Ou apenas uma trivialidade trocada entre pessoas que encontram-se, invariavelmente, todos os dias? É. Só outro dia para saber. Mas que realmente a tarde estava linda, ah, isso estava.

SP 07/02/02
Jean Boëchat


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