cachaça   
      

Enquanto andava bêbado
pelas ruas escuras
no chão difícil, fôlego,
trançando traçados estranhos,
não temia mula-sem-cabeça,
não temia curupira,
não temia os mortos,
não temia a vida.

Tudo escuro,
cidade antiga,
escravos pretos,
tudo escuro,
andava bêbado.

Grilhões, chibatas e gemidos.
Virgens-Santas, sol rachando e preces.
Procissões e fé.

Tudo claro,
cidade antiga,
sinhás branquelas,
tudo claro,
andava bêbado.

Enquanto andava bêbado
pelas ruas do dia
no chão ainda difícil, sem fôlego,
trançando pontos estranhos,
não temia papas, bispos, sacrilégios,
não temia as moças, raparigas, messalinas,
não temia os vivos,
não temia a morte.


BH 05/08/01
Jean Boëchat


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