bom dia   
      

Noite.
Andando pelas ruas de um Alto-Leblon perdido.

É noite mesmo. Fim de noite.
Já não se lembra mais do que bebeu, com quem bebeu.
Traz no peito uma dor. Foi um tombo de cima de uma cadeira na hora em que fez o discurso. Caiu com de lado, batendo a costela numa mureta. Com certeza quebrou alguma coisa.

"- E o vexame?"

"- Que vexame?"

Não, ele não lembra de nada.
Na cabeça só uma coisa: andar, andar, andar.
Quem sabe para passar aquela ânsia que acompanha, aquele fantasma que o persegue, aquele amor que perdeu numa fala errada, numa esquina da Bartolomeu.

As ruas começam a subir e descer. Deve ser o cérebro mareado.
Os garçons disseram que daquele jeito, poucos voltam pra contar história.

Ninguém imaginava, que depois de tanto andar, o suor já tinha colocado quaisquer substâncias esquisitas. Em minutos já estaria inteirinho. Cansado e com um gosto estranho na boca e pensamentos estranhos na mente, mas inteiro.

Sentou numa escada e esperou o começo do dia.

"- Como eu gosto dessa hora. As coisas tem uma tonalidade meio rosa, meio amarela." - balbuciou sozinho.

De repente, ele percebe um cheiro assim. Meio rosa, meio amarelo.

Entre seus pés tortos, uma flor.

Olha para cima e vê uma árvore gigante. Dela, caem flores.
Centenas, milhares. O cheiro aumenta e as cores se tornam mais forte.

Ele não sabe muito bem o que está acontecendo. Mas sente.

Um amanhecer com chuva de jasmins.

Ele levanta a cabeça. A rua está toda tomada por jamins.
O cheiro invade o ar, invade as casas, invade as vidas.

É um cheiro forte de lembranças, já dizia a escritora escondida.
Traz avós, tias queridas.
Traz amores perdidos.

Ele levante e corre pelas ruas róseas, amarelas, brancas.
O céu tomado de flores faz sombras lindas pelas paredes.

E ele corre. Com um sorriso imenso no rosto e saudades daquela menina.

O coração cheio de alegria.

Foi assim. Tudo por causa de uma flor.


SP 04/09/01
Jean Boëchat


| anterior | Índice | próxima |


©Mariana Newlands e Jean Boëchat [ Todos os direitos reservados ]