ela simplesmente passa   
      

Não me lembro bem, acho que a primeira vez, ele estava no Leblon.
Num boteco daqueles clássicos.
Foi uma coisa assim, meio jobim-vinicius: ela simplesmente passou.
Já deviam estar no quinto ou sexto chope, conversa animada, coisas da vida, e, ela simplesmente passou.
Talvez fosse o ângulo de sua posição. Não dá para calcular exatamente, mas ele viu. Quer dizer, parece que só ele viu. A frase ficou no ar.

"- Mas então, o que ele disse?"

Sem resposta.

"- Fala rapaz, o que ele disse?"

Um segundo e um olhar perdido:

"- Do que você está falando mesmo?"

"- Ih... Acho melhor você parar de beber! Você tava falando do cara lá e daquele lance do outro dia!"

"- Ah... Tá. Mas então..."

O assunto chegou a voltar. Mas logo ele entregou os pontos. Não conseguia mais se concentrar em nada. Largou um chope no meio - que sacrilégio! -, mais uns 10 reais na mesa, nota de plástico, e pediu pra sair. A galera não entendeu nada.

Caminhou pela Ataulfo sem confusão alguma. Tinha na mente clara, apenas uma imagem: ela simplesmente passando.

Dobrou a esquina em direção a praia. Quase que um ônibus o pegou. O motorista e metade dos passageiros o atropelaram em impropérios.

Chegou ao mar, ambos agitados. Dia nublado, meio frio e a noite se pronunciando.

Não teve coragem para contar para os amigos. Quer dizer, não quis dividir o momento: ela simplesmente passando.

De longe tenta reconstruir o momento: a posição da cadeira, o sentido da passagem, a altura do chope no copo, a música que estava tocando - tenho quase certeza de que era aquela daquele cara famoso pedindo amor, aquela que ele tocava com a revistinha. Cenário e trilha completos, só faltava a protagonista principal. O diretor grita:

"- Rodando! Ação!"

No tempo certo, a câmera capta. Passos firmes, três moças. Duas em animada conversa e a terceira com um sorriso acompanhante. Passos certeiros, em tempo andante, mundo em câmera-lenta, plano americano, uma luz cinza.
A primeira, mais baixinha, parece uma versão micro da terceira: morena, cabelos lisos e escorridos, assim, semi-molhados. Uma em tamanho P e a outra em tamanho M. Dá pra arriscar que elas são irmãs. A segunda, tem cabelão cheio de enroladinhos e pele branca. Tamanho M também. Mas nada disso importa. Tudo é detalhe. A câmera persegue o sorriso simples da terceira e por alguns fotogramas, o olhar dela fixa displicentemente na lente e, ah, ela simplesmente passa.

Pareceu filme russo. O segundo mais lento da história da humanidade. O suficiente para mudar o sentido de tudo. Ele olha para as ondas nervosas e não vê. Não vê as meninas que passam correndo de shortinho na areia, não vê que acenderam a luz do Dois-Irmãos, não vê João Ubaldo caminhando no calçadão. É coisa séria mesmo.

"- Para onde ela foi?"

Não há resposta. Ela simplesmente passou.
Passou como um ataque sinfônico.
Passou como um coletivo de beleza.
Não qualquer beleza. Uma daquelas belezas esquisitas que ele tanto fala.
Sabe? São aquelas belezas estranhas. Das que ele constrói sempre. Não tem nada demais, mas tem de tudo que ele gosta.

Ela simplesmente passou.

Passou, passou.

Passou por ali, mas ficou na retina. Ficou bem na foto. Ficou no coração.
Do jeito que ele precisava.
Ela simplesmente passou.
E ele nunca mais foi o mesmo. Nem o Leblon.

Agora dá pra entender a poesia.

Ouro Preto 01/08/01
Jean Boëchat


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